quinta-feira, outubro 6

A verdade é que a gente adora um drama. Daqueles bem mexicanos, daqueles que te permitem chorar, e sofrer, e ser vítima de intrigas e enganos, tudo por uma promessa de final feliz. Na vida mesmo, eu tô falando. Se tudo está bem demais, a gente sempre se pergunta o que é que há de errado, procura um defeitinho e se agarra a ele e não larga mais. E de vez em quando eu até acho que uns arranca-rabos fortificam certos relacionamentos, e estar com outro é isso aí, na saúde e na doença, na tempestade e na bonança. Mas existem certos casais que vou te contar, viu!

Um casal de conhecidos namora desde que o mundo é mundo, desde que Adão e Eva descobriram o que era bom, desde a época do tacape e dos macacos. E desde então eles brigam sempre pelos mesmos motivos. Se desentendem sempre pelas mesmas besteiras. Depois se acertam de novo, colocam uma pedra por cima do assunto e fingem que nada aconteceu. Pra dali a algum tempo, num momento de calmaria qualquer, entre um beijinho e outro, ressussitar o diabo do problema de sempre. Não sentam e resolvem, nem têm coragem suficiente pra dar um tempo um do outro pra repensar as atitudes e os sentimentos. Que nem o Ed e a Sol, que estão naquele lenga-lenga sem fim, sofrendo nem me lembro mais pelo quê, ao invés de botarem logo os pingos nos i's e ficarem juntos de uma vez.

O problema é que se Feitosa e Islene deixam de se encarar amarguradamente na rua, a novela acaba e o povo pára de assistir. Porque todos adoramos um drama. O problema é quando a sua própria vida se transforma num desses dramalhões, com mocinha chorando sem parar ou homem bobo sofrendo como só a Gloria Perez sabe inventar (fala sério, não existe homem bobo do tanto que ela pinta não, não é possível, cada mané!). Uma conhecida, por exemplo, terminou com o namorado depois de mais de 2 anos de namoro. Daí sofreu o que tinha que sofrer, tava lá dando bobeira e seguindo a vida dela como tinha que ser quando surgiu um pretendente fofo e interessado. Ela já colocou mil e um empecilhos pra acontecer, mas foi deixando rolar, afinal ninguém normal reclama de côrte. Quando o rapaz finalmente se declarou, ela foi sincera e lançou logo "se vc me quer, tem que saber que eu ainda sou apaixonada pelo meu ex e que eu nunca vou me apaixonar de vc".

Meio forte, eu concordo, mas também estou de acordo que as coisas tinham que ser às claras, é todo mundo grandinho e se supõe que é sempre melhor saber onde se está metendo do que ser enganado. Pois bem. O rapaz não se deixou intimidar e mandou ver que por ele seria daquele jeito mesmo, e que ele estava disposto a mostrar que ela poderia mudar de idéia. Deste dia em diante ela se transformou numa máquina de reclamação ambulante. E ele no avesso do que se poderia esperar. Ela reclamava que ele não tentava conquistá-la. Ele até que parecia que estava se esforçando, mas não muito. Ela reclamava que ele não tomava nenhuma iniciativa. Ele passou a mão onde não devia e ela achou ruim. Ela perguntava a cada cinco minutos o quanto ele gostava dela, mas diante da mesma pergunta ela sempre dizia que estava "assim, assim" e que não sentia lá essas coisas.

Acontece que um dia ela veio com o clássico "você me ama?" e a resposta foi um relutante "não sei...". Isso foi o suficiente pra que se estourasse a terceira guerra mundial dos relacionamentos, pra que ela entrasse em crise, ficasse triste e praticamente em prantos, se achasse rejeitada, enganada, iludida, e o pobre se tornou nada mais do que "tá vendo, stella, eu te disse que homem nenhum presta". Diante de tamanha "decepção", ela resolveu logo dizer que não ia dar certo mesmo, que ele não era nada do tipo de homem que ela procurava, que ela queria um homem maduro e que soubesse o que quer (ah, querida, quem não quer, me diga?) e deu logo um jeito de chutar o tal. Dois dias depois foi à casa dele pedindo pra voltar. Ele disse que as coisas não eram assim. Dois dias depois disso ela lhe tascou um beijo de surpresa. Ela se descobriu perdidamente apaixonada. E eu fico me perguntando: como assim, Bial?

Por que a gente insiste em histórias que não dão certo? Não se desliga de casos de amor platônico que não vão pra frente? Não se deixa envolver pela vida que segue e por um novo amor que pode ou não surgir? Por que diabos a gente não consegue passar uma borracha nos problemas e começar do zero ou tentar um caminho diferente? Por que raios a gente não esquece, por mais que se queira esquecer? Será que a gente quer mesmo?

O sentimento intenso é encarado como o único e o último, como o maior, como o incomparável, e vale mais sofrer e manter a lembrança deste que não se repete do que depositar as esperanças em encontrar outro que ocupe este lugar. Ou quem sabe alimentar este sentimento tão intenso que nunca vai te levar a alguma realização, só por medo de ter que arrancar aquilo de dentro de você à força e ficar com o buraco. Ora bolas, o buraco mais dia menos dia fecha, a ferida sara, a caravana passa e a fila anda! Por que a gente foi levado a acreditar que se é mesmo amor é pra sempre, e vc nunca vai conseguir se livrar dessa praga, por mais que tente, como a Sol e o Tião?

Alimentar lembranças não é tentar. Alimentar esperanças não é tentar. Olhar as fotos, telefonar pra ouvir a voz, nada disso caracteriza tentar. E, falando de mim, eu estou sendo tão dura comigo mesma porque eu sei e tenho consciência de que certos sentimentos só me fazem mal, são irrealizáveis, são inalcançáveis, me fazem sofrer, e eu ainda insisto neles. Como a Sol, o Ed e o Tião. Mais dia menos dia vai chegar a hora de substituir tanto drama por uma comédia pastelão. Aí sim, vai dar pra viver.

Nenhum comentário: