quarta-feira, outubro 4

Rio de Janeiro
Hoje é 23 do 3
Como vão as coisas
De mês em mês
Eu me sento pra escrever pra você

Eu reformei a casa
Você nem soube disso
Nem das outras coisas
Sabe eu tive um filho
Já faz tempo que eu me perdi de você

Guardo pra te dar
as cartas que eu não mando
Conto por contar
E deixo em algum canto

Vi alguns amigos
Tropeçando pela vida
Andei por tantas ruas
São estórias esquecidas
Que um dia eu quis contar pra você


Eu fico imaginando
Sua casa e seus amigos
Com quem você se deita
Quem te dá abrigo
Eu me lembro que eu já contei com você

E as pilhas de envelopes
Já não cabem nos armários
Vão tomando meu espaço
Fazem montes pela sala
Hoje são a minha cama
Minha mesa, meus lençóis
E eu me visto de saudades
Do que já não somos nós


As cartas que não mando - Leoni
Algumas coisas merecem ficar registradas pra posteridade. Pra que um dia, quando o cataclisma nuclear e biológico chegar, e não sobrar nem poeira pra contar a história, as civilizações mais avançadas formadas por etezinhos verdes e simpáticos que vão chegar por essas bandas possam ter material pra tentar entender o homo sapiens brasiliensis. Mesmo que esse registro seja feito no disco virtual de algum blog de pouca popularidade.

repórter da globo: Sr. Clodovil, como é que o senhor pretende chegar ao Congresso Nacional?
Clodovil: Evidentemente que eu vou chegar em Brasília chiquérrimo. Porque isso eu sou mesmo.
repórter da globo: E qual o tipo de projetos que o senhor como deputado pretende levar pra Brasília?
Clodovil: ...
repórter da globo: ...
Clodovil: Não sei... Não sei nem se ainda existe política nesse país, querido!

Juro!

domingo, outubro 1

Ok. Então suponho que ninguém mais venha por aqui, né? Eu tenho pensado muito em voltar a escrever, especialmente nas últimas semanas. Tô me sentindo sufocada com a cabeça cheia de coisas que eu não consigo entender, mais coisas ainda que eu não consigo explicar. Hoje mesmo eu me vi dizendo pra mim mesma "calma, Stella, organiza esse pensamento", mas não tenho sido capaz de organizar nem minhas panelas.

Em panos rápidos, tô morando no Rio desde março. Dia 13, pra ser mais específica. Sozinha. A adaptação não foi tão difícil quanto eu imaginava. Meu pai veio comigo ajudar na mudança, depois minha mãe também veio passar uns dias e me ensinar a fazer feijão, e uma das vantagens de se morar numa cidade que bem ou mal todo mundo quer conhecer é que os amigos aparecem o tempo todo. Fui pra casa em junho e agosto e já comprei minhas passagens pra ir novamente em novembro e nas festas de fim de ano, se Deus quiser. Até me sinto meio culpada às vezes por não me sentir presa a Brasília, como eu ouço todo mundo que sai de casa dizer. Aquela saudade avassaladora, de querer largar tudo e pegar o primeiro avião. Sou diferente, e pra ser sincera gosto muito pouco disso. Faz com que me sinta muito egoísta, sem vínculos, mesmo que lá no fundo eu esteja certa de que estou cheia de amor pra dar. Só não curto sofrimento, embora me meta numas roubadas sofríveis mesmo sabendo onde vai dar. Mas esse já é outro assunto.

Acabo me fingindo ser alguém que não sou. Pra falar a verdade, acho que ninguém me conhece como eu realmente sou. Não que eu pense que isso é privilégio meu. Aliás, acredito que ninguém se mostre como é de verdade. Pra ser mais profunda ainda, quem é que sabe mesmo quem é de fato? Mas voltando à vaca fria, eu confesso que gostei de ficar sozinha por alguns meses. Poder andar de calcinha pela casa, dançar Prince no chuveiro, assistir tv pelada, ter meu espaço, meus horários, minha rotina. Eu sentia saudades, mas era um sentimento tranquilo, de quem tá seguindo com a própria vida e sabe que é inevitável deixar algumas coisas pra trás, e ter a paciência pra se convencer de que se desesperar não vai levar a lugar nenhum (nossa, quase me convenci de ser uma pessoa bem resolvida agora..). Eu estava achando ótimo estar num lugar diferente, começando a ser gente grande e a tomar minhas próprias decisões, mesmo nas coisas mais simples, como a organização das coisas na dispensa ou o horário de fazer faxina. Eram muitas mudanças, eu gostava de passar um tempo comigo, apesar de me sentir meio só vez por outra. Mas era bom conversar comigo mesma em voz alta enquanto lavava a louça. Acho que poderia me acostumar com isso e quem sabe até ser feliz. Não estou falando que não goste de gente, e que não senti falta de estar o tempo todo rodeada de gente que me ama, de receber telefonemas inesperados no meio de uma tarde de domingo acompanhados de convites pra tomar sorvete, chá, ou ir ao cinema. Sentia falta disso, mas estava gostando bastante da experiência de ter minha atenção voltada só pra mim.

Pois é, mas essa fase já era. Desde agosto, quando voltei de Brasília, tenho agora um roomate. Um amigo de faculdade, que também concluiu o mestrado e viu no Rio uma boa oportunidade de unir o útil ao agradável: fazer o doutorado em um bom centro de pesquisas e sair de casa, pra ter um pouco de sossego. Eu estava achando tudo tão bom, que nem conseguia esconder minha felicidade. Além de ter um amigo querido (é uma amizade confusa e conturbada, mas cheia de carinho, com certeza) pra dividir as despesas, eu achava que já estava na hora mesmo de compartilhar o espaço com alguém. Mas de vez em quando eu me pego arrependida. Com saudades de vagar pelo apartamento em noites de insônia, me vendo obrigada a ter dor de cabeça por conta de divisão de tarefas, essas coisas. Falando assim parece que eu tenho síndrome de filho único, e não discordo que seja um pouco disso mesmo, mas acho que é mais que isso, e essa experiência parece que vai me trazer um aprendizado em um setor da minha personalidade que eu não imaginava: mais cedo ou mais tarde eu vou ter que aprender a me expressar. A falar as coisas, a me impor, a deixar de ser mosca morta e parar de fazer faxina escondido pra não ter que enfrentar um conflito. A abrir a boca pra dizer que eu prefiro assim a assado, que me dê licença pq quero usar o computador, que hoje não estou a fim disso ou daquilo. Eu reclamo quase o tempo todo (mentalmente, pra mim mesma, sabe?!) que a ele falta iniciativa, que ele não faz nada se não for mandado, e em geral vc tem que mandar várias vezes. Mal de menino mal acostumado, sabe? Mas acho que me irrita mais a minha própria falta de atitude de escancarar como me sinto, ao invés de deixar tudo nas entrelinhas. Desse jeito chega mesmo a ser até injusto com o pobre, que não tem porque adivinhar que estou me sentindo desse ou daquele jeito.

Soma-se a isso o fato de que ele sente muita falta da família. O que faz com que eu me sinta mais bruxa sem coração ainda. Além de todos os problemas que já temos no nosso relacionamento (todos têm, isso eu sei), ainda sobram aqueles que eu mesma coloquei e que ele nem desconfia.

Aparentemente, esse vai ser o maior desafio do meu doutorado.
Como assim, julho?! Meu Deus, por quê ninguém me acordou?!